Encaracolo o olhar,
Removo a face,
Para te conhecer...
Descubro a carne,
Queimo os ossos,
Purifico o que de mim resta,
Solto ao vento,
Porque a natureza enterra,
Parto, reparto,
Deito-me à espera , ainda a pintar...
Queira ou não queira,
A carnal submissão humana,
Ergue faixos que se distendem,
Quando os homens não compreendem,
O lacrimejar das pedras,
Que do tempo das Quimeras,
Ergueram pontes aos felizardos.
Fundidas pelas feras,
Levaram a argamassa dura,
Que até hoje perdura ,
E, outrora fora magma incandescente.
Um qualquer castiçal prudente,
Ergueria a mesma luz,
De peregrino errante,
Caminhante do desespero,
Que clama pela razão,
Em sacrificial profecia,
De sacrosanta celebração.
Qual monge guerreiro,
Cavaleiro de bíblia na mão,
Se intrepôs à vontade do homem ?!
Qual Humana voz que chora,
Se comove com o gritar dos incardidos ?!
O pano caído jamais será levantado,
O teatro embora perdure agita
As celestinas complacências.
Quando vieres, vem devagar,
Mas leva-me depressa ...
Qual submissão das feras,
Homem, Touro, Águia , Leão,
Todos se prostraram,
Todos são servos,
da sofrida adoração.
Por Fernando Pessoa
A arte não tem, para o artista, fim social. Tem, sim, um destino social, mas o artista nunca sabe qual ele é, porque a Natureza o oculta no labirinto dos seus designios. Eu explico melhor. O artista deve escrever, pintar, esculpir, sem olhar a outra cousa que ao que escreve, pinta, ou esculpe. Deve escrever sem olhar para fora de si. Por isso a arte, não deve ser, propositadamente, moral nem imoral. É tão vergonhoso fazer arte moral como fazer arte imoral. Ambas as [cousas] implicam que o artista desceu a preocupar-se com a gente de lá fora. Tão inferior é, neste ponto, um sermonário católico como um triste Wilde ou d'Annunzio, sempre com a preocupação de irritar a plateia. Irritar é um modo de agradar. Todas as criaturas que gostam de mulheres sabem isso, e eu também sei.
in 'Sobre «Orpheu», Sensacionismo e Paùlismo'